CLARA CAVENDISH
artista visual



Paixão Domada
Clara paixão domada
Helena Ortiz *
O olhar mais cúmplice e admirador que paternal, do poeta Jorge Wanderley sobre a pintora com raízes na "geração 80 carioca" Clara Cavendish, traduz em metáfora poética o ato de criação desta artista, promessa realizada na maturidade da crença de seu mestrre na adolescência _ Luis àquila.
Perseguindo desde muito cedo a pesquisa apaixonada do mistério da convivência entre cores e formas, sempre fortes e afirmativas em sua pintura, parece ter atualmente encontrado o segredo para domá-las.
O resultado desta paixão domada é a excelência da harmonia encontrada entre forma e cor, e a força concentrada nas imagens, ora figurativas, ora abstratas, de seu mais recente trabalho.
Clara é bem brasileira na expressão pictórica e não lhe faltam os arroubos cromáticos do Nordeste luminoso, que deixou na infância, nem as sutilezas do verde azul do Rio /Lagoa/Mar da cidade onde viveu desde a adolescência e que costuma homenagear com imagens transfiguradas e poderosas. Mas também não escapou à nostalgia e pessimismo do inverno berlinense, cidade que conheceu por alguns anos quando ali cursou a HDK, (Academia de Artes de Berlim), onde o cinzento exterior é o simbólico que pelo olhar penetra a alma e se traduz em seus quadros na violência dos traços negros, nos amarelos vangoghianos desesperados e pungentes.
Clara Cavendish é uma mesta da convivência entre todos estes sentimentos perpetuamente recriados em cotidiano laborioso. Sua dedicação ao ofício que iniciou na adolescência é tão permanente, séria e apaixonada que, vendo-a pintar, o poeta Jorge Wanderley escreveu o poema que aqui transcrevo ao lado.
E esta é a verdade: a dedicação de Clara à sua pintura é religiosa e profunda e o resultado de tanto talento, persistência e entrega é a maravilha para olhos treinados em ver o belo, o terrível e o sublime que todos conhecemos.
*Poeta, escritora e editora da revista "Panorama da Palavra", da Editora da Palavra.
Clara Pintando
Jorge Wanderley
O espaço que se cria
entre você e o quadro
fica mais denso nas interrupções:
quando você se afasta,
olha para ele sem qualquer
expressão identificável no rosto
e pára
como se tornada em cera
num mundo imóvel que espera
por seu veredicto;
não
se ouve nenhum zumbido de tuas máquinas
nem do mundo: motores parados.
No quadro, as pessoas
esperam até que você
_ sem qualquer aviso ou sinal _
retorna até elas e aí
o barulho que fazem, elas,
o mundo e você
é realmente uma grande algazarra.
Etudo começa a se mexer novamente.